A sinalização horizontal é um componente essencial da segurança viária, pois orienta condutores, ciclistas e pedestres, organiza os fluxos de tráfego e contribui para a redução de riscos operacionais. Sua efetividade, entretanto, depende da visibilidade diurna, da retrorrefletividade noturna e da manutenção do desempenho sob condições adversas, como pista molhada, chuva, neblina, desgaste superficial e tráfego intenso. Nesse contexto, os elementos retrorrefletivos cerâmicos constituem tecnologia complementar às esferas e microesferas convencionais, com potencial para melhorar a percepção da demarcação em condições críticas de visibilidade.
O que é o Elemento Cerâmico?

O Elemento Cerâmico, para fins técnicos e normativos (ABNT NBR 17097/2023), deve ser tratado como um conjunto composto de núcleo e elementos satélites ligados ao núcleo. Suas composições podem ser vítreas ou cerâmicas. Este elemento deve ser utilizado como complemento das esferas e microesferas de vidro em sistemas de sinalização horizontal viária. Sua função é otimizar a retrorrefletividade e a conspicuidade da demarcação, especialmente em condições adversas de clima e presença de filme de água sobre a marca viária. O desempenho final deve ser avaliado por critérios mensuráveis, como retrorrefletividade inicial e residual, conforme o método de medição especificado para o contrato ou projeto.
ABNT NBR 17097/2023 – Elementos de microesferas de vidro de núcleo esférico e não esférico com satélites de microesferas de vidro ou cerâmica
Na sinalização horizontal viária, a NBR 17097 – Sinalização horizontal viária — Elementos de microesferas de vidro de núcleo esférico e não esférico com satélites de microesferas de vidro ou cerâmica, define dois tipos de elementos retrorrefletivos com satélites: Tipo A e Tipo B.
Os elementos Tipo A possuem núcleo esférico de vidro, com satélites de microesferas de vidro ou cerâmica aderidos à superfície. Essa configuração garante maior uniformidade na reflexão da luz e bom desempenho em condições secas e molhadas. Já os elementos Tipo B apresentam núcleo não esférico de vidro, também com satélites de microesferas de vidro ou cerâmica. A geometria irregular favorece a retrorrefletividade em diferentes ângulos de incidência, ampliando a visibilidade em situações adversas, como chuva ou presença de filme de água.
Em ambos os casos, os satélites têm a função de ampliar a área de reflexão e criar múltiplos pontos de retorno da luz, reforçando a performance da sinalização sem substituir as microesferas tradicionais. A escolha entre Tipo A ou Tipo B depende das condições de tráfego, clima e especificações técnicas do projeto, sempre alinhada às recomendações do fabricante.
Tipo A oferece maior uniformidade, enquanto Tipo B garante melhor desempenho em ângulos variados e sob chuva , ambos contribuem para a redução de riscos associados à baixa visibilidade.
Aplicação e ancoragem à tinta
O desempenho do elemento retrorrefletivo está diretamente relacionado à sua correta ancoragem ao material-base ainda em condição adequada de aplicação, seja tinta, termoplástico ou plástico a frio. A ancoragem deve permitir simultaneamente retenção mecânica suficiente e exposição óptica adequada, de modo que o elemento permaneça aderido à demarcação e preserve sua capacidade retrorrefletiva ao longo da vida útil prevista.
Estudos internacionais de segurança viária indicam maior severidade dos sinistros em períodos noturnos e sob baixa visibilidade, especialmente quando associados a chuva, neblina ou deficiência de orientação visual. Por isso, a melhoria da retrorrefletividade e da percepção da sinalização horizontal pode contribuir para reduzir riscos operacionais associados à condução noturna e a condições climáticas adversas.
Fatores críticos para a fixação
Para alcançar o desempenho esperado, é necessário controlar o sincronismo entre aplicação do material-base e aspersão, a viscosidade e temperatura de aplicação, a espessura úmida, a granulometria ou diâmetro dos elementos, a taxa de aspersão, bem como as condições do pavimento e do ambiente.
A aplicação deve ocorrer no intervalo em que o material-base ainda permita a penetração parcial dos elementos, sem provocar afundamento excessivo ou exposição insuficiente. Tanto a taxa de aspersão quanto o tipo de elemento devem obedecer às especificações do fabricante, do projeto e do órgão contratante.
Profundidade ideal de ancoragem

A eficiência da retrorrefletividade depende da proporção entre a parcela incorporada ao material-base e a parcela exposta ao fluxo luminoso dos faróis. Como diretriz técnica de aplicação, recomenda-se que a ancoragem seja suficiente para assegurar retenção mecânica, sem comprometer a exposição óptica do elemento.
Uso do Elemento cerâmico e compatibilidade do aglutinante
O uso dos elementos cerâmicos deve ser definido em conjunto com o sistema de demarcação: tinta à base de água, termoplástico por aspersão ou extrusão, termoplástico em alto-relevo, plástico a frio/MMA ou outros materiais especificados.
No caso de tintas à base de resina acrílica emulsionada em água, devem ser observados os requisitos da ABNT NBR 13699 e os procedimentos de execução e avaliação aplicáveis às tintas. A espessura úmida, a taxa de aspersão e o tipo de elemento retrorrefletivo devem constar da especificação técnica do sistema.
Para marcações termoplásticas, devem ser observadas as normas brasileiras aplicáveis ao processo utilizado: ABNT NBR 13132 para extrusão, ABNT NBR 13159 para aspersão e ABNT NBR 15543 quando se tratar de termoplástico em alto-relevo. O termoplástico deve atender aos requisitos de composição, temperatura, coesão, aderência, pigmentação, embalagem, ensaios e desempenho previstos nessas normas.
Para marcações em plástico a frio à base de resinas metacrílicas reativas, devem ser observadas as disposições da ABNT NBR 15870 e as recomendações do fabricante quanto à espessura, taxa de aspersão, cura, aderência e liberação ao tráfego. A aplicação de elementos com satélites deve ser validada em conjunto com o sistema de resina, catalisador e material retrorrefletivo utilizado.
Aplicação da demarcação com o elemento cerâmico
A aplicação do elemento deve ser feita utilizando um sistema de aspersão dupla, combinando elementos cerâmicos refletivos e microesferas. O procedimento exige que os elementos sejam aplicados já na primeira aspersão do sistema, garantindo melhor fixação e desempenho.
A velocidade de aplicação deve ser compatível com o equipamento, a vazão, a taxa de aspersão, a viscosidade/temperatura do material-base, a geometria da demarcação e as recomendações do fabricante. Portanto, valores de referência, como velocidades próximas de 13 km/h, podem ser adotados quando previstos em manual técnico do sistema, mas não devem ser apresentados como requisito universal.
Exemplos práticos de aplicação
A aplicação é especialmente pertinente em trechos nos quais a visibilidade da demarcação é crítica: rodovias de maior velocidade, curvas, aproximações de túneis, interseções, transições de faixa, pontes, segmentos sujeitos a chuva/neblina, áreas com histórico de sinistros e locais em que se deseje maior conspicuidade da sinalização horizontal. A seleção deve ser precedida por critério técnico de projeto, análise de risco e especificação de desempenho.

Benefícios da tecnologia
O Elemento Cerâmico proporciona retrorrefletividade contínua em pista seca ou molhada, cores vivas e padronizadas ao longo dos anos, além de resistência ao tráfego intenso e às intempéries.
Sua durabilidade reduz custos de manutenção e aumenta a eficiência das rodovias. Mais do que uma solução técnica, trata-se de um investimento em segurança e preservação da vida.
O futuro da sinalização viária
A correta especificação e aplicação dos elementos cerâmicos pode elevar o desempenho funcional da sinalização horizontal, especialmente em condições noturnas e climáticas adversas. Ao integrar material-base adequado, elementos retrorrefletivos compatíveis, controle tecnológico e avaliação por métodos normalizados, a demarcação passa a oferecer maior previsibilidade visual ao condutor e melhor condição de leitura da via. Trata-se de uma solução técnica de alto valor agregado, que deve ser apresentada como parte de um sistema de segurança viária, e não como produto isolado.
Referências Normativas Técnicas citadas e adicionais
Normas Brasileiras (ABNT)
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 13132: Sinalização viária – Tintas para demarcação horizontal – Requisitos. Rio de Janeiro: ABNT.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 13159: Sinalização viária – Microesferas de vidro para uso em tintas de demarcação horizontal – Requisitos. Rio de Janeiro: ABNT.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 13699: Sinalização viária – Tintas à base de resina acrílica para demarcação horizontal – Requisitos. Rio de Janeiro: ABNT.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15543: Sinalização viária – Materiais termoplásticos para demarcação horizontal – Requisitos. Rio de Janeiro: ABNT.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15870: Sinalização viária – Tintas à base de resina epóxi para demarcação horizontal – Requisitos. Rio de Janeiro: ABNT.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 16184: Sinalização viária – Materiais retrorrefletivos – Requisitos. Rio de Janeiro: ABNT.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 17097: Elementos cerâmicos com satélites para sinalização horizontal. Rio de Janeiro: ABNT.
Documento Nacional
BRASIL. Conselho Nacional de Trânsito. Manual Brasileiro de Sinalização Horizontal. Brasília: DENATRAN.
Normas Americanas (AASHTO)
AMERICAN ASSOCIATION OF STATE HIGHWAY AND TRANSPORTATION OFFICIALS. Standard Specification for Glass Beads Used in Traffic Paints (AASHTO M247/M249). Washington, D.C.: AASHTO.
Normas Europeias (CEN)
EUROPEAN COMMITTEE FOR STANDARDIZATION. EN 1423: Materials for road marking – Drop-on materials – Glass beads, antiskid aggregates and mixtures. Brussels: CEN.
EUROPEAN COMMITTEE FOR STANDARDIZATION. EN 1424: Materials for road marking – Premix glass beads. Brussels: CEN.
